TETINE

Wednesday, 4 December 2019

Entrevista sobre o novo disco Animal Numeral (2019)






Entrevista concedida ao jornalista Abonico Smith, October 2019.

>> O que é e como vocês definiriam o Animal Numeral?

BRUNO: Um animal hormonal à serviço do gozo. De carne osso até o pescoço, construindo ficções de nós mesmos. Auto-ficção. Animal Numeral é um álbum eletrônico-orgânico que investiga poeticamente questões filosóficas, políticas, históricas, sociais, sexuais, matemáticas e linguísticas. Pulsões relacionadas às nossas experiências mediadas por números, por ações, inações, pelo corpo, tecnologia, remédios, raça e marginalidade. É um disco sobre a percepção da velha ideia de “fim da história” que na verdade nunca se consumou mesmo estando na beirada do fim da própria história. O apocalipse que não chegou, o apocalipse em constante formação. O disco ‘conversa’ sobre esses processos de desumanização; sobre ser e estar imerso, digo, interconectado em cadeias pós-humanas sem chances de voltar. Sobre os nossos afetos, e suas viagens hormonais. Mas também sobre uma apatia energética global que nos conecta à aparelhos celulares, redes sociais, grupos, outros artistas, organizações e instituições pelo mundo afora. Cada um no seu quadrado, mas todos engolidos, saturados, exaustos e ainda assim emanando meias verdades. Em outras palavras, sobre ter se tornado ‘número’ dentro do projeto neoliberal tecno-científico-racial mundial. Um projeto de guerra.

>> Este disco aumenta o tom político das letras da dupla. Sinal dos tempos atuais? O que vocês poderiam falar sobre quem acha que um artista não deve se posicionar politicamente, apenas gravar e subir ao palco para entreter os fãs?

ELIETE: Tudo na vida é político.  Nasci durante a ditadura militar. Fui obrigada a hastear muita bandeira e cantar o hino nacional na escola. Estudei em uma escola do estado na Zona Leste de São Paulo, vi muita criança com marca de queimadura de ferro de passar, desnutrida, crianças que vomitavam durante a aula. Com 7 anos não sabia o que era aquilo… não se falava sobre o assunto no Brasil. E era um silêncio mortal na minha casa. A casa de Bernarda Alba! Fui descobrindo as coisas por mim mesma. Me lembro de uma professora Russa sobrevivente da Alemanha de Hitler… seus pais morreram na Segunda Guerra. Esse era o cenário. Acho que hoje vivemos em tempos onde somos cúmplices de tudo, e temos muito mais informações do que tínhamos em 1974. Tudo é visível. O teatro está aberto, escancarado. Quando você ouve uma música como “A Mulher do Fim Do Mundo”, por exemplo, aquilo te muda… te transtorna… te da uma urgência. É esse o espírito. 

>> Quem são as maiores inspirações (para o bem ou para o mal) deste novo disco?

BRUNO: Acho que o disco é um reflexo de uma constelação de condições, decisões e temporalidades distintas. Tudo passa por esse buraco. O genocídio mundial praticado por homens de terno que se acham “autores”; presidentes que se acham ‘performers’ e que acreditam piamente no seu teatro. A exclusão social, a imigração, o holocausto climático, o lamaçal, o Brexit, o racismo, o óleo, o lixo, as indústrias farmacêuticas, alimentícias, armamentistas, religiosas, e as praias do Brasil ensolaradas.

>> “This Is The Voice” fala sobre os supremacistas brancos que não só ainda existem aos montes nos Estados Unidos como também tiveram ampliados suas vozes e ações nos últimos anos. O que vocês acham da relação deste povo com uma extrema direita que hoje governa o Brasil, votou para o Reino Unido se separar da Comunidade Europeia e está em crescimento aí por outros países do velho continente também?

ELIETE: O fascismo está aí normalizado e legitimado por toda essa nova geração de políticos populistas de direita e seus seguidores. Todos se acham ‘autores’. E com os seus pomos de adão têm direito a voz. E a mulher? Essa não pode vacilar. Veja o que aconteceu com a Marielle, uma MULHER que tinha voz. Uma mulher que falava. Coisa rara, foi morta porque falava. Isso pra mim traduz todo esse tempo.
O fascismo é parte do dia a dia de agora. Foi aberta a caixa de pandora e tudo está saindo de dentro. A máscara caiu e virou um show cafona. 

BRUNO: É sintomático ver o Brasil tão alinhado à essa nova corrente mundial tendo como líder um fantoche tacanho, subserviente, agressivo, misógino, homofóbico, racista, pouco sexy, e acima de tudo cristão. Ninguém merece um imbecil desses como porta voz de um país que até pouco tempo atrás era representado por forças como Glauber Rocha, Abidias Nascimento, Rogério Sganzerla, Luiz Melodia, Itamar Assumpção, Brizola, Elke Maravilha. Onde foi que isso tudo se perdeu? 

ELIETE: Um retrocesso político, estético, social, mental, energético, sexual e religioso se instituiu. Aonde foi parar o nosso desbunde real? Sinto falta desse Brasil.  Lembro com dor de estômago na ocasião daquela votação para o impeachment da Presidente Dilma em TV aberta, um mundo de homens engravatados - a maioria (mas também outras mulheres) se pronunciando em nome da tal família brasileira. O futuro presidente oferecendo seu voto à memória de um coronel torturador que durante os anos da ditadura militar colocava ratos nas vaginas das mulheres. A energia do Brexit é parecida, mas é mais cínica. Ha muito racismo na Europa de agora. Sempre houve, mas agora está exacerbado, normalizado, oficializado. Mesmo em Londres que é uma cidade onde se fala mais de 300 línguas. 
  

>> A letra de “Why Bandido” se destaca pela extensa narrativa e por versos bastante imagéticos. Como surgiu a ideia desta música? Vocês temem que a distopia cantada na letra um dia acabe acontecendo de fato?”

ELIETE: O terceiro mundo já explodiu. Essa música foi criada em 2011 quando fizemos a performance Tetine vs O Bandido da Luz Vermelha. Ela foi concebida como uma declaração de amor à obra do cineasta Rogerio Sganzerla. A primeira vez que apresentamos foi com a musa Helena Ignez, que participou ao vivo quando tocamos no Sesc Vila Mariana dentro do projeto Cine Concerto. A letra surgiu de experimentações e improvisações vocais que fazíamos com diálogos e falas dos filmes do Sganzerla. A partir disso criamos uma outra narrativa. A primeira versão da música saiu no disco In Loveland With You (2013), e pode ser considerada a nossa versão original. Depois em 2018 começamos a fazer outros experimentos com a letra do Bandido e acabamos gravando uma nova versão que virou o “WHY BANDIDO”. Essa versão é bem diferente da original, tem um beat e um baixo bem marcados, foram gravados novos vocais e se parece mais com um Kraut bem dissonante. Gostamos tanto da nova versão que incluímos ela nos nossos dois últimos álbuns Animal Numeral e Tetine vs Pasolini: The Baron, The Bishop, The Judge, The President and The Relative, este último gravado ao vivo no Sesc Avenida Paulista.

>> Outra letra altamente distópica é a de “Rats And Humans”, na qual vocês sugerem uma raça que misture as duas espécies…

BRUNO: "Rats and Humans” é uma canção ambígua sobre a falta de lugar dentro do próprio lugar. De novo uma auto-ficção sobre o espaço público no leste de Londres, mais especificamente, sobre um fim de tarde em Bethnal Green, em Tower Hamlets - bairro onde nos últimos 20 anos circulamos quase todos os dias. A música comenta esse eterno deslocamento vivido pelos imigrantes, por corpos racializados, e por aqueles que 'não-pertencem'.  As crianças e os adolescentes vigiando o parque, os dealers de heroína passando com seus  carros, as mães passeando com os carinhos de bebês, o vendedor de flores. E a morte eminente, sempre rondando. É uma canção sobre sobreviver. Ou melhor, sobre continuar vivo, sobrevivendo.  O anti-refrão dela, funciona meio que como uma corrida Beckettiniana; aquela corrida que não dá em lugar nenhum. E assim, é também uma alusão poética aos ratos de Londres. Uma cidade inteira submersa. A letra é delirante como um sonho. Ratos e humanos na mesma corrida. Mamíferos numerais. As gaivotas já estão no centro da cidade e não só mais no litoral. A música também fala sobre atear fogo. A atmosfera nos faz lembrar das riots de 2011 aqui em Londres, depois que a polícia atirou em um jovem negro em Tottenham. E também do fogo visceral que tomou conta de mais de 25 andares do edifício Grenfell Tower em West London em 2017. 


>> As duas primeiras faixas, “Cannibalia” e “Konkret Dance” são de forte teor sexual. O sexo, aliás, sempre esteve bastante impresso em letras de outros discos anteriores…
ELIETE: Sexo é fonte de energia vital. Sem essa energia, não há nada, não ha pulsão.
>> Como é o processo de criação musical do Tetine, já que muitas das obras musicais são acompanhadas por instalações, performances e vídeos? Letra, melodia e harmonia chegam primeiro do que todo o resto? 

BRUNO: Depende, as vezes a música vem primeiro e depois a melodia e a letra. Não temos uma fórmula.  E isso vale para os outros tipos de trabalho em vídeo, instalações, performances e etc. Trabalhamos os dois de forma bem orgânica. Acho que no fundo o que estamos fazendo parte da ideia de intervir no ar. São intervenções rítmicas mediadas por som, imagem, palavra, gesto, dança, sexo e respiração.  As vezes vem de algo que ouvimos. De conversas, de insônias. De percepções. Ou de algo que algo que assistimos, ou lemos. Ou de alguma experiência doméstica. Estar vivo em 2019 já é muito. Tudo em tempo real.

>> Uma das faixas traz uma adaptação do francês Alfred Musset, considerado um dos grandes expoentes do período romântico. Qual é o grau de envolvimento do Tetine com as obras dele?

ELIETE: Sobre Alfred Musset, gosto muito do pessimismo, da solidão, da hipocrisia e da melancolia dos textos dele. Ação X Reflexão. Isso é parte da alma do Tetine também. Já estava lá no nosso primeiro disco Alexander’s Grave de 1995. 

>> Vocês são lançadores compulsivos de discos, chegando a lançar um ou até dois álbuns por ano. Quanto tempo do dia ou da semana vocês se dedicam a criar, gravar e experimentar sons?

ELIETE: Depende muito da fase, ou do projeto que estamos trabalhando, ou da nossa disposição pra fazer as coisas. Mas te digo que respiramos Tetine 24 horas por dia. É como uma filha que está em todo lugar com a gente acompanhando a corrida e sempre em formação. É desse modo que criamos. Observando, vivendo a vida domesticamente, negando, celebrando, conversando, criticando e ficcionalizando o mundo.  O Tetine pra gente é um modo de entender o mundo, um modo de estarmos vivas, onde é possível intervir poética, filosófica e politicamente ao mesmo tempo.  


>> Em outros discos o Tetine esteve mais próximo do funk carioca, mas curiosamente neste quase não há sinais do gênero, em prol de tons mais dançantes e sóbrios (eletrônico, pós-punk). Por quê?

BRUNO: Acho que o Animal Numeral é um disco de verve mais pós-punk mesmo. Seu tom é melancólico, lisérgico. É um álbum dissonante, melodioso e as vezes sufocante também, dependendo do seu estado de espírito. Saiu assim. Mas poderia facilmente ter entrado alguma faixa mais próxima de um ‘funk’ mais sombrio. Digo, uma faixa como ‘Desnorteia’, por exemplo, que está no disco Bonde do Tetão; ou mesmo de experiências como “Zero Zero Cinco Cinco Se Vende!” do L.I.C.K My Favela; músicas que foram bem influenciadas por Miami Bass e Funk Carioca. 

>> O funk carioca está em sua melhor fase no Brasil, conquistando de vez respeito, fama, popularidade e já escalado em grandes festivais. Ainda falta o quê para que seus principais artistas estendam o trabalho para a Europa?

BRUNO: Outro dia mesmo a Deize Tigrona esteve aqui com o Batekoo pra tocar, assisti o set deles e achei incrível! Falta só mundo o aprender a falar outras línguas e deixar de ser permissivamente branco, hegemônico, Anglo-Americano. Falo isso não só em relação a música, mas toda uma cultura do sul global que está anos-luz a frente de muita coisa que se faz por aqui, e acaba existindo sempre de maneira periférica.

>> Bruno, você ainda está fazendo o doutorado em pós-punk? Qual seu envolvimento pessoal com o gênero e por que escolheu este tema? O brasileiro ainda não conhece o pós-punk feito no país nos anos 1980?

BRUNO: Sim, e agora finalmente estou caminhando para o fim. Meu envolvimento com pós-punk vem desde os anos 80 em Belo Horizonte, cidade em que nasci, e aonde toquei em várias bandas da época como R. Mutt, Divergência Socialista, Ida & Os Voltas, Sebastian in Space (entre outras) que circulavam pelo cenário alternativo da cidade. O pós-punk mineiro dos anos 80 foi um universo poético à parte na minha história como artista. Era uma cena bem hibrida que foi parte fundamental da minha formação como músico, e trouxe muitas amizades que conservo até hoje. Em 2018 lançamos um álbum chamado Colt 45: Underground Post Punk, Tropical Tapes, Lo-Fi Electronics & Other Sounds From Brazil (1983-1993) – uma compilação com trabalhos de várias bandas dessa época, além de outras igualmente importantes que vieram de cenas similares ao redor do Brasil. Foi um período de descobertas e uma fase de extrema criação e produção para muita gente que viveu na época. Foi ali que aprendi muito do que sei sobre arte, música, performance, poesia, política e teoria. Tudo de forma intuitiva e sempre coletivamente. Tenho certeza que foi um momento muito importante na vida de todos que viveram. 



>> O Tetine já está há vinte anos radicado em Londres, mostrando que é possível viver do circuito da arte fora do país. Existe alguma possibilidade de retorno ao Brasil ou vocês sequer pensam nisso até o momento?

BRUNO - Sempre fomos estrangeiros mesmo dentro do Brasil. Nunca pertencemos totalmente. Depois de 20 anos sendo estrangeiros na Inglaterra também, nos definimos mesmo como Aliens. Tanto lá, quanto aqui.          

>> Quais são as três piores e as três melhores coisas de se viver longe do Brasil durante duas décadas?

BRUNO E ELIETE: 

3 piores:  
1. Se deparar sempre com o fato de que pessoas não falam a sua língua, e portanto, não atuam no mesmo campo sensorial. 
2. Instabilidade frequente, principalmente agora com o Brexit. 
3. Hegemonia imperial

3 melhores: 
1. Anonimato e cultura. 
2. Um outro tipo de liberdade. Os parques.
3 O sistema de saúde NHS.




An interview with Tetine about the release of NUMERAL ANIMAL (2019)


>> What is it and how would you define Animal Numeral?

BRUNO: A hormonal animal in the service of enjoyment. From flesh bone to the neck, building fictions of ourselves. Auto-fiction. Animal Numeral is an electronic-organic album that poetically investigates philosophical, political, historical, social, sexual, mathematical and linguistic issues. The impulses related to our experiences mediated by numbers, actions, inactions, body, technology, medicine, race and marginality. It is an album about the perception of that old idea of the ​​"end of story" which never really took place, even being on the edge of the end of the story itself. The apocalypse that has not come, the apocalypse in constant formation. The record talks through these dehumanization processes; about being immersed, I mean, interconnected in post-human chains with no chance of returning. It is about our affections, and their hormonal travels. But also, about a ‘global energy’ apathy that connects us to cell phones, social networks, organizations, institutions, other artists and people around the world. Each one in its  own square, but all swallowed, saturated, exhausted and yet emanating half-truths. In other words, this is about becoming 'number' within the worldwide techno-scientific-racial neoliberal project: a war project.

>> This album increases the political tone of the duo's lyrics. Is this a sign of the present times? What could you say about those who thinks an artist shouldn't position themselves politically, just record and take the stage to entertain the fans?

ELIETE: Everything in life is political. I was born during the military dictatorship. I was forced to raise a lot of flag and sing the national anthem at school. I studied at a state school in the East Zone of Sao Paulo, I saw children with their legs burned, children who were vomiting during class, malnirished. When I was 7 years-old I didn't know what that was. We didn't talk about it in Brazil. And there was a deadly silence in my house. Bernarda Alba's house. I was discovering things for myself. I remember a surviving Russian teacher from Hitler's Nazi Germany… her parents died in World War II. That was the scenario. I think today we live in times when we are complicit in everything, and we have much more information than we had in 1974. Everything is visible. The theatre is open, wide open. When you listen to a song like “A Mulher do Fim do Fim Do Mundo,” for example, it changes you… upsets you… gives you an urgency. That's the spirit.

>> Who are the biggest inspirations (for better or worse) of this new album?

BRUNO: I think the record is a reflection of a constellation of distinct conditions, decisions and temporalities. Everything goes through this hole. The worldwide genocide sponsored by men in suits who consider themselves “authors”; presidents who think they are performers and strongly believe in their theatre. Social exclusion, immigration, climate holocaust, mudflats, Brexit, structural racism, oil, waste, the pharmaceutical industry, food industry, arms, religious, and sunny beaches of Brazil.

>> "This Is the Voice" talks about white supremacists who not only still exist in the United States in large numbers but have also expanded their voices and actions in recent years. What do you think about the relationship of this people with an extreme right that rules Brazil today, voted for the United Kingdom to separate from the European Community, and which is still growing in other countries of the old continent as well?

ELIETE: Fascism is normalized and legitimized here by this whole new generation of right-wing populist politicians and their followers. Everyone thinks they are authors. And with their Adam's apple they have a voice. And the woman? A woman cannot falter. Look what happened to Marielle, a WOMAN who had a singular voice. A woman who spoke. A rare thing, she was killed because she spoke. This for me translates everything and these times we are in. Fascism is part of everyday life now. The pandora's box has been opened and everything is coming out of it. The mask fell off and the world turned itself into a tacky show.

BRUNO: It's symptomatic to see Brazil so aligned with this new world order, having as its leader a narrow-minded, subservient, aggressive, misogynist, homophobic, racist, non-sexy, and above all an evangelical puppet. No one deserves such an imbecile as spokesman for a country that until recently was represented by forces such as Glauber Rocha, Abidias Nascimento, Rogério Sganzerla, Luiz Melodia, Itamar Assumpção, Brizola, Elke Maravilha. Where did it all get lost?

ELIETE: A political, aesthetic, social, mental, energetic, sexual and religious setback has been instituted. Where did all of our ‘desbunde’ go? I miss this Brazil. I remember with a stomach ache, at the time of that horror show that was the vote for President Dilma's impeachment on open TV, a world of men in costume - most (but also other women) speaking out on behalf of the Traditional Brazilian Family. The soon-to-be president (Bolsonaro) offering his vote to the memory of a torturing colonel who during the years of the military dictatorship placed rats in women's vaginas. Brexit's energy is similar but more cynical. There is a lot of racism in Europe right now. There has always been, but now it is exacerbated, normalized, made official. Even in London which is a city where more than 300 languages are spoken.

>> The lyrics for “Why Bandido” stand out for their extensive narrative and very imagetic lines. How did the idea for this song come about? Do you fear that the dystopia sung in the lyrics will one day actually happen? ”

ELIETE: The third world has already exploded. This song was created in 2011 when we created the performance Tetine vs O Bandido da Luz Vermelha. It was conceived as a declaration of love for the work of filmmaker Rogerio Sganzerla. The first time we performed this song was with Sganzerla’s own muse and wife Helena Ignez, who participated live when we played at Sesc Vila Mariana within the project Cine Concerto. The lyrics came from experiments and vocal improvisations that we did with dialogues and speeches of his films. From this we create another narrative. The first version of the song came out on the album In Loveland With You (2013),and is considered our original version. Then in 2018 we started experimenting with Bandido's lyrics and ended up recording a new version that became “WHY BANDIDO”. This version is very different from the original, has a well-marked beat and bass; new vocals have been recorded and sounds more like a dissonant Kraut-punk funk. We love this new version so much that we decided to include it in our last two albums Animal Numeral and Tetine vs Pasolini: The Baron, The Bishop, The Judge, The President and The Relative, the latter recorded live on Sesc Avenida Paulista.

>> Another highly dystopian track is "Rats And Humans," in which you suggest a race that mixes the two species…

BRUNO: "Rats and Humans" is an ambiguous song about the lack of place within the place itself. Again, a auto-fiction about public space in East London, more specifically about a late afternoon at Bethnal Green in Tower Hamlets, a neighbourhood where we have been circulating almost every day for the last 20 years. The song comments on the eternal dis-location experienced by immigrants, racialized bodies, and those who do not belong. Children and teenagers in the park, the heroin dealers, mothers strolling their babies, the flower salesman. And the imminent death, always prowling. It's a song about surviving. Or rather, staying alive. Her anti-chorus works kind of like a Beckett event. That race that goes nowhere, you know what I mean? And so, it's also a poetic allusion to the rats of London. A whole submerged city. The lyrics are delirious like a dream. Rats and humans in the same race. Numeral mammals. The seagulls are already in the city centre and not only on the coast. The atmosphere reminds us of the 2011 riots here in London after police shot a young black man in Tottenham. And also, the visceral fire that took over 25 floors of the Grenfell Tower building in West London in 2017.

>> The first two tracks, "Cannibalia" and "Konkret Dance" are of strong sexual content. Sex, by the way, has always been quite present in lyrics from other previous albums…

ELIETE: Sex is a source of vital energy. Without this energy, there is nothing, there is no drive.

>> What is Tetine's  creative process like, since so many of the musical works are accompanied by installations, performances and videos? Do lyrics, melody and harmony arrive first of all?

BRUNO: It depends, sometimes the song comes first and then the melody and then lyrics. We do not have a formula. And that goes for the other types of works, be they videos, film,  installations, performances and so on. We both work very organically. We make poetic ​​interventions in the air, that’s how I like to think about the process. These are normally rhythmic interventions mediated by sound, image, word, gesture, dance, sex and breathing. Sometimes, it comes from something we hear. It might come from conversations, from insomnia. From something we watch, or from readings. These are the types of perceptions, I believe. And quite a lot is born out of domestic experience as well. Being alive in 2019 is already quite a thing, I’d say. All in real time.

>> One of the tracks features an adaptation of the French author Alfred Musset, considered one of the great exponents of the romantic period. How involved is Tetine with his works?

ELIETE: I love the pessimism, loneliness, hypocrisy and melancholy of Musset’s texts. Action X Reflection. This is part of Tetine's soul as well. It was already there on our first album Alexander’s Grave  from 1995.

>> You guys are compulsive recorders, even releasing one or even two albums a year. How much time of day or week do you devote to creating, recording and experimenting with sounds?

ELIETE: It depends a lot on the phase, or the project we're working on, or our willingness to do things. But I tell you that we breathe Tetine 24 hours a day. It's like a daughter who is everywhere with us, growing up and therefore, always in formation. This is how we create. Observing, living life domestically, denying, celebrating, talking, criticizing and fictionalizing the world. Tetine for us is a way of understanding the world, a manner of being alive. It is a mental and sonic and visual space where it is possible to intervene poetic, philosophically and politically at the same time.

>> On former albums Tetine was closer to funk carioca, but curiously there are almost no signs of this genre, in favour of more dancing and sober tones (electronic, post-punk). Why?

BRUNO: I think Animal Numeral has more of a post-punk verve. His tone is melancholic and lysergic. It's a dissonant, melodious and sometimes a suffocating album, depending on your mood. It came out like that. But it could easily have dark funks on it as well. I mean, a track like 'Desnorteia, for example, which is on Bonde do Tetão (2004); or even experiments like “Zero Zero Five Five For Sale!” from the album L.I.C.K My Favela (2005).

>> Funk carioca is in its best phase in Brazil, gaining respect, fame, popularity and in all major festivals. What do you think the main artists still need to reach Europe?

BRUNO: The other day Deize Tigrona was here with Batekoo to play, I watched their set and I found it amazing! I think, the world has to learn to speak/ understand and feel other languages ​​and stop being permissively white, hegemonic, Anglo-American. This is not only about music, but an entire Southern global culture that is light years ahead of much that is being done here, and always existed on a peripheral basis.

>> Bruno, are you still doing a doctorate in post-punk? What is your personal involvement with the genre and why did you choose this theme? 

BRUNO: Yes, and I'm now finally heading towards the end. My involvement with post-punk comes from the 1980's underground scene of Belo Horizonte, which is the city where I was born, and where I played in several bands such as R. Mutt, Socialist Divergence, Ida & Os Voltas, Sebastian in Space (among others) that circulated around the alternative music and art circuit of the city. The Minas Gerais post-punk of the 80s was a poetic universe apart from many other Brazilian scenes. It is part of my formative years as an artist. It was a very hybrid scene that was played a fundamental role in my development as a musician, not to mention it brought many friendships that I still have today. In 2018 we released an album called Colt 45: Underground Post Punk, Tropical Tapes, Lo-Fi Electronics & Other Sounds From Brazil (1983-1993) - a compilation of works by various bands from that time, as well as other important artists from distinct scenes around Brazil. For me, this was a period of discovery, as well as, and a cultural moment of extreme creativity and production for those who lived at the time. That's where I learned a lot of what I know about art, music, performance, poetry, politics, and theory. All intuitively and always collectively. 

>> You have been living in London for twenty years. Is there any possibility of returning to Brazil or you don’t ever think about it?

BRUNO - We have always been foreigners in Brazil. We never belonged fully. After 20 years being foreigners in England too, we define ourselves as aliens. Both there and here. In the meantime, I have no plans to come back.

>> What are the three worst and three best things about living away from Brazil for two decades?

Worst 3:
1. The fact that people do not speak your language, and therefore do not act in the same sensorial field.
2. Frequent instability, especially now with Brexit.
3. Imperial hegemony and the constant illusion of it.

Best 3:
1. Anonymity and culture.
2. Another kind of freedom. 
3 The NHS 

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